Corpo ao longo da vida

    Pavimento pélvico: muito mais do que força

    Compreender o pavimento pélvico como parte de um sistema integrado de suporte, movimento, respiração e função.

    Christine Coelho · 15 de agosto de 2026

    Pavimento pélvico: muito mais do que força
    Mulher a explorar o movimento e a consciência da região pélvica através da respiração.

    O pavimento pélvico é muito mais do que um músculo

    Quando ouvimos falar de pavimento pélvico, é frequente a primeira associação ser:

    “Tenho de fazer Kegels para o fortalecer.”

    Mas esta visão é demasiado simples.

    O pavimento pélvico é uma região complexa, constituída por músculos, tecido conjuntivo, fáscias, ligamentos, vasos e nervos, que participa em várias funções do organismo.

    Entre elas encontram-se o suporte dos órgãos pélvicos, a continência urinária e fecal, a função sexual e a participação no controlo e movimento da região lombo-pélvica.

    E existe ainda uma característica fundamental:

    o pavimento pélvico precisa de saber contrair, mas também precisa de saber relaxar.

    As recomendações clínicas actuais reflectem precisamente esta ideia. O treino do pavimento pélvico pode ter como objectivo melhorar força, resistência, potência, relaxamento ou uma combinação destes componentes, de acordo com as necessidades da pessoa.


    O que é o pavimento pélvico?

    O pavimento pélvico pode ser imaginado como uma estrutura que ocupa a parte inferior da bacia.

    É constituído por várias camadas musculares e estruturas de tecido conjuntivo que trabalham em conjunto para proporcionar suporte e permitir movimento e função.

    Mas não devemos imaginar esta região como uma espécie de “rede” isolada do resto do corpo.

    O pavimento pélvico está integrado numa região anatómica onde encontramos também o diafragma respiratório, a parede abdominal, a coluna lombar, as articulações da anca e várias estruturas fasciais.

    A anatomia fascial desta região é particularmente complexa. Uma revisão sistemática dedicada especificamente à fáscia do pavimento pélvico feminino identificou numerosas estruturas fasciais e também importantes lacunas e inconsistências na descrição anatómica existente.

    É precisamente por isso que gosto de olhar para o pavimento pélvico como parte de um sistema, e não como um músculo que precisamos simplesmente de fortalecer.


    O que faz o pavimento pélvico?

    As suas funções são diversas.

    Suporte

    Participa no suporte dos órgãos pélvicos.

    Continência

    Participa no controlo da urina e das fezes.

    Função sexual

    Está envolvido na função sexual e na resposta sensorial da região pélvica.

    Movimento e estabilidade

    Participa no controlo da região lombo-pélvica e adapta-se às diferentes exigências mecânicas do corpo.

    Respiração e pressão

    O pavimento pélvico participa na gestão das pressões dentro da cavidade abdominal e trabalha em coordenação com outras estruturas durante a respiração e o movimento.

    Por isso, quando levantamos um peso, tossimos, saltamos, respiramos profundamente ou simplesmente mudamos de posição, o pavimento pélvico não fica parado.

    Adapta-se.


    Forte não significa necessariamente saudável

    Esta é uma das ideias que considero mais importantes.

    Durante muitos anos, a mensagem transmitida às mulheres foi:

    “Fortalece o pavimento pélvico.”

    E o fortalecimento pode, efectivamente, ser muito importante em determinadas situações.

    Por exemplo, o treino do pavimento pélvico é uma intervenção de primeira linha para mulheres com incontinência urinária de esforço ou mista. As recomendações do NICE indicam programas supervisionados durante pelo menos três meses nestas situações.

    Mas nem todas as pessoas precisam simplesmente de mais força.

    Algumas podem ter dificuldade em contrair.

    Outras podem ter dificuldade em relaxar.

    Outras podem apresentar dor, excesso de tensão ou dificuldade em coordenar a contração com a respiração e o movimento.

    Por isso, antes de perguntar:

    “Como posso fortalecer o meu pavimento pélvico?”

    talvez devêssemos perguntar:

    “O que é que o meu pavimento pélvico precisa de aprender a fazer?”


    Contrair e relaxar fazem parte da mesma função

    Um músculo saudável não é apenas aquele que consegue produzir força.

    Também precisa de conseguir libertar essa força.

    É semelhante ao que acontece com qualquer outro movimento.

    Precisamos de contrair para produzir uma acção, mas precisamos também de conseguir relaxar para permitir movimento, adaptação e recuperação.

    É por isso que um programa adequado de treino do pavimento pélvico deve avaliar a capacidade de contrair e relaxar, e não apenas a força da contração. Esta é precisamente uma das recomendações do NICE para a supervisão destes programas.


    E os famosos exercícios de Kegel?

    Os exercícios de Kegel popularizaram a ideia de contrair voluntariamente os músculos do pavimento pélvico.

    E podem ter o seu lugar.

    Mas não são a totalidade do trabalho do pavimento pélvico.

    A forma correcta de treinar depende da pessoa, dos sintomas, da função e do objectivo.

    Uma mulher com incontinência urinária de esforço pode beneficiar de um programa específico de fortalecimento.

    Outra mulher com dor pélvica e excesso de tensão pode necessitar de uma abordagem completamente diferente.

    O mesmo exercício não serve para todos.


    Pavimento pélvico e respiração

    É aqui que a relação com o movimento se torna particularmente interessante.

    A respiração implica alterações contínuas de pressão e movimento dentro do tronco.

    O diafragma respiratório, a parede abdominal e o pavimento pélvico participam nessa dinâmica.

    Durante a inspiração e a expiração, estas estruturas adaptam-se às mudanças mecânicas que acontecem no tronco.

    Por isso, em vez de pensarmos:

    “Tenho de contrair o pavimento pélvico o tempo todo.”

    podemos começar a explorar:

    Como é que esta região se move quando respiro?

    Consigo contrair e depois libertar?

    Consigo manter a respiração enquanto me movimento?

    O que acontece quando mudo de posição?

    Estas perguntas podem ser muito mais interessantes do que procurar uma única forma “correcta” de contrair.


    O papel da fáscia

    É precisamente aqui que a investigação fascial acrescenta uma dimensão interessante.

    A região pélvica contém uma rede complexa de estruturas fasciais e tecido conjuntivo que se relacionam com músculos, órgãos e outras estruturas da pelve.

    A investigação mais recente sobre o sistema fascial procura inclusive estabelecer uma nomenclatura anatómica mais consistente, reconhecendo diferentes componentes e organizações do sistema fascial.

    Isto não significa que possamos atribuir à fáscia todas as funções do pavimento pélvico.

    Significa, sim, que uma visão exclusivamente muscular é provavelmente insuficiente para compreender toda a complexidade desta região.

    E é precisamente essa visão integrada que me interessa explorar no trabalho corporal.


    Gravidez e pós-parto

    A gravidez representa uma enorme adaptação mecânica para o corpo.

    O aumento do volume e peso uterino, as alterações posturais, hormonais e mecânicas e o próprio parto podem modificar as exigências colocadas sobre o pavimento pélvico.

    O treino do pavimento pélvico durante a gravidez pode ser útil, nomeadamente para reduzir o risco de incontinência urinária em determinadas situações. As recomendações clínicas incluem o treino do pavimento pélvico durante a gravidez e no período pós-parto.

    Mas o pós-parto não deve ser reduzido a:

    “Tiveste um bebé, agora tens de fazer Kegels.”

    A recuperação deve ter em conta os sintomas, o tipo de parto, possíveis lesões, dor, continência, função sexual, capacidade de contracção e relaxamento e a progressão da actividade física.

    Quando existem sintomas persistentes, uma avaliação individualizada por um profissional especializado em reabilitação do pavimento pélvico pode ser muito importante.


    E se houver perdas de urina?

    As perdas urinárias são frequentes, mas isso não significa que devam simplesmente ser aceites como inevitáveis.

    Existe tratamento eficaz para muitas formas de incontinência urinária, e o treino supervisionado do pavimento pélvico é uma das principais intervenções conservadoras recomendadas para a incontinência urinária de esforço e mista.

    Por isso, se existe:

    • perda de urina;

    • perda de fezes;

    • sensação de peso pélvico;

    • dor pélvica;

    • dor durante a relação sexual;

    • dificuldade em urinar ou evacuar;

    vale a pena procurar avaliação profissional.

    Não é preciso simplesmente aprender a viver com estes sintomas.


    O que podemos aprender com o pavimento pélvico?

    Talvez a maior lição seja esta:

    o corpo não funciona através de músculos isolados.

    O pavimento pélvico não é apenas uma estrutura que precisamos de fortalecer.

    É uma região que sente, se adapta, contrai, relaxa e participa no movimento.

    E quanto mais compreendemos esta complexidade, mais interessante se torna o trabalho corporal.

    Em Yoga, Pilates ou treino da fáscia, podemos começar a explorar não apenas quanto conseguimos contrair, mas também:

    como respiramos, como nos movemos, como sentimos e como conseguimos adaptar-nos.

    Para mim, esta é uma abordagem muito mais rica do que simplesmente dizer a uma mulher:

    “Faz Kegels.”

    Conhecer o corpo é também aprender a escutá-lo.

    Referências

    1. M. Ricci; N. Garcia; M.-P. C. et al.. The Female Pelvic Floor Fascia Anatomy: A Systematic Search and Review. Life (2021)ver fonte
    2. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Pelvic floor dysfunction: prevention and non-surgical management. NICE Guideline NG210 (2021)ver fonte
    3. Carla Stecco; Rebecca Pratt; Laurice D. Nemetz; Robert Schleip; Antonio Stecco; Neil D. Theise. Towards a comprehensive definition of the human fascial system. Journal of Anatomy (2025)ver fonte