Pilates
Pilates e saúde mental: pode o movimento ajudar na depressão?
A relação entre movimento, consciência corporal e saúde mental — e o que sabemos actualmente sobre o papel do Pilates nos sintomas depressivos.
Christine Coelho · 15 de agosto de 2026

A depressão é uma condição de saúde que pode afectar o humor, o pensamento, o sono, a energia, a motivação e também o corpo.
Durante muito tempo, falar de depressão significava sobretudo falar de pensamentos e emoções. Hoje sabemos que a saúde mental não pode ser completamente separada da saúde física. O sono, a actividade física, o isolamento social, o stress e as condições de vida podem influenciar o bem-estar psicológico e fazer parte da experiência de uma pessoa com depressão.
É por isso que, quando falamos de saúde mental, também faz sentido falar de movimento.
Não como uma solução milagrosa.
Não como substituto de acompanhamento psicológico ou médico.
Mas como uma das ferramentas que pode contribuir para recuperar uma relação mais saudável com o próprio corpo e com a vida.
O corpo também participa
Quando estamos emocionalmente fragilizados, o corpo pode tornar-se mais sedentário, rígido e cansado. Podemos dormir pior, ter menos energia e perder vontade de fazer aquilo que anteriormente nos dava prazer.
E instala-se facilmente um ciclo:
menos movimento → menos energia → mais isolamento → menor bem-estar → ainda menos vontade de nos mexermos.
Interromper este ciclo pode ser importante.
A actividade física regular está associada a benefícios para o bem-estar e é incluída nas recomendações clínicas para pessoas com depressão, embora o tipo e a intensidade da actividade devam ser adequados à situação de cada pessoa.
E especificamente o Pilates?
É aqui que a questão se torna interessante.
O Pilates não é apenas um conjunto de exercícios físicos. A prática envolve concentração, controlo do movimento, respiração, precisão e consciência corporal.
Essas características podem fazer com que a pessoa não esteja simplesmente a “fazer exercício”, mas a prestar atenção àquilo que está a acontecer no seu corpo.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2018 encontrou reduções significativas nos sintomas depressivos e de ansiedade em pessoas que praticavam Pilates. No entanto, os autores salientaram que os estudos disponíveis eram relativamente poucos, com amostras pequenas e qualidade variável.
Mais recentemente, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 analisou 32 estudos randomizados e quase-experimentais, envolvendo 1264 participantes, avaliando efeitos do Pilates na saúde mental, bem-estar psicológico e qualidade de vida. Os resultados apontam para um possível benefício global, mas os autores também salientam a heterogeneidade dos estudos e a necessidade de investigação mais robusta.
Ou seja: os resultados são promissores, mas não devemos transformar uma associação em uma promessa terapêutica.
A concentração pode mudar a relação com o corpo
Um dos princípios fundamentais do Pilates é a concentração.
Quando executamos um movimento com atenção, temos de observar a respiração, a posição do corpo, a relação entre as diferentes partes e a qualidade do movimento.
Durante alguns minutos, a atenção deixa de estar exclusivamente nos pensamentos e passa também para o corpo.
Isso não significa que o Pilates “desligue” os pensamentos negativos ou cure a depressão.
Significa algo mais simples:
podemos criar momentos em que voltamos a sentir o corpo.
E essa experiência pode ser particularmente importante numa fase em que a pessoa se sente desligada de si própria.
Movimento consciente não é movimento perfeito
Existe ainda uma diferença importante entre fazer exercício e relacionarmo-nos com o movimento.
Não precisamos de executar uma postura perfeita.
Não precisamos de fazer o exercício mais difícil.
Não precisamos sequer de sentir que temos muita energia.
Podemos começar por perceber:
Como estou hoje?
Como está a minha respiração?
Onde sinto tensão?
Tenho energia para este movimento?
Preciso de diminuir a amplitude?
Preciso de parar?
Esta capacidade de observar sem julgamento aproxima a prática de uma verdadeira consciência corporal.
E é precisamente aqui que o Pilates pode encontrar uma dimensão que vai para além da componente física.
O papel da respiração
A respiração é outro elemento importante da prática.
Coordenar a respiração com o movimento pode ajudar a criar um ritmo e uma maior atenção à experiência corporal.
Mas também aqui é importante não exagerar as conclusões científicas: não precisamos de afirmar que uma determinada técnica respiratória “equilibra hormonas” ou “cura a ansiedade”.
Podemos simplesmente reconhecer que a respiração consciente faz parte da prática e pode favorecer uma experiência de maior presença corporal.
E quando não existe motivação?
Este é talvez um dos maiores desafios.
Quando uma pessoa está deprimida, dizer-lhe simplesmente “faz exercício, vai fazer-te bem” pode ser insuficiente — e até frustrante.
A falta de energia e de motivação faz parte da própria experiência depressiva.
Por isso, começar pequeno pode ser mais realista.
Dez minutos de movimento.
Uma caminhada.
Alguns exercícios de Pilates.
Uma aula suave.
Movimentos feitos em casa.
O objectivo inicial não precisa de ser desempenho.
Pode ser simplesmente voltar a criar uma relação com o movimento.
A regularidade pode tornar-se mais importante do que a intensidade.
O grupo também pode fazer diferença
Quando o Pilates é praticado em grupo, existe ainda uma dimensão social.
A pessoa sai de casa, encontra outras pessoas, estabelece uma rotina e participa numa actividade partilhada.
As recomendações do NICE incluem programas de actividade física em grupo como uma das opções que podem ser consideradas no contexto da depressão menos grave, salientando também a importância de adaptar a actividade às necessidades físicas e psicológicas da pessoa.
Por isso, uma aula não é necessariamente apenas uma hora de exercício.
Pode ser também uma hora de presença, contacto e pertença.
Pilates não substitui tratamento
Esta parte é essencial.
O Pilates pode ser uma ferramenta complementar de bem-estar e pode contribuir para a redução de sintomas depressivos em algumas pessoas.
Mas não deve ser apresentado como tratamento da depressão.
Uma pessoa com depressão pode precisar de acompanhamento psicológico, psiquiátrico, médico ou de outras intervenções terapêuticas. Em situações de depressão moderada ou grave, a necessidade de acompanhamento profissional é particularmente importante.
E se existirem pensamentos de morte ou suicídio, não é o momento para tentar resolver a situação apenas através do exercício: é necessária avaliação e ajuda profissional adequada.
O movimento pode acompanhar o processo. Não deve substituir os cuidados de que a pessoa necessita.
Talvez a pergunta seja outra
Talvez a questão não seja:
“O Pilates pode curar a minha depressão?”
Mas sim:
“Como posso voltar a sentir-me presente no meu corpo?”
Talvez seja através do Pilates.
Talvez seja através da caminhada, da dança, do Yoga, da natação ou simplesmente de alguns minutos de movimento consciente.
O importante é encontrar uma forma de movimento que seja possível, segura e sustentável.
Porque o corpo não é separado daquilo que sentimos.
Quando começamos novamente a habitá-lo, podemos também começar a reconstruir a relação connosco próprios.
Referências
- Karl M. Fleming; Matthew P. Herring. The effects of Pilates on mental health outcomes: A meta-analysis of controlled trials. Complementary Therapies in Medicine (2018) — ver fonte
- Panagiotis K. et al.. Effects of Pilates-Based Exercise on Mental Health, Psychological Well-Being, and Quality of Life: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports (2026) — ver fonte
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Depression in adults: treatment and management. NICE Guideline NG222 (2022) — ver fonte