100 dias para compreender a fáscia

    Dia 2 dos 100 dias para compreender a fáscia

    · por Christine Coelho

    A fáscia consegue sentir?

    O que sabemos sobre a relação entre a fáscia, o sistema nervoso e a percepção corporal

    No episódio anterior falámos sobre o que é a fáscia e sobre a sua relação com diferentes estruturas do corpo.

    Mas há uma frase que pode ter despertado a tua curiosidade: a fáscia é rica em terminações nervosas.

    Então será que a fáscia consegue sentir?

    A resposta precisa de alguma nuance.

    Quando dizemos que um tecido tem capacidade sensorial, não estamos a dizer que esse tecido “pensa” ou que sente dor de forma independente.

    Estamos a falar da presença de estruturas nervosas capazes de receber e transmitir informação ao sistema nervoso.

    E é aqui que a fáscia se torna particularmente interessante.

    A fáscia tem terminações nervosas?

    Sim.

    A investigação anatómica e histológica mostra que diferentes tecidos fasciais apresentam inervação sensorial, embora a densidade e o tipo de inervação possam variar conforme a região e o tipo de fáscia estudado.

    Uma revisão sistemática da literatura sobre a inervação fascial encontrou diferentes tipos de terminações nervosas, incluindo terminações nervosas livres e estruturas associadas à propriocepção e à nocicepção.

    Isto significa que determinadas estruturas fasciais podem participar na receção de informação relacionada com estímulos mecânicos e potencialmente nocivos.

    Mas é importante não transformar esta informação numa explicação simplista para toda a dor.

    A investigação ainda está a esclarecer exactamente como diferentes tecidos fasciais contribuem para a experiência sensorial e dolorosa.

    Então, o que significa “sentir”?

    Imagina que fechas os olhos e tocas no teu braço.

    Mesmo sem olhar, consegues perceber que estás a tocar no teu corpo.

    Consegues perceber o contacto. A pressão. O movimento. A posição da tua mão.

    Tudo isto acontece porque o sistema nervoso recebe constantemente informação proveniente do nosso corpo.

    Esta informação ajuda-nos a construir uma percepção do nosso próprio corpo e a coordenar os nossos movimentos.

    Os tecidos fasciais fazem parte deste complexo sistema de informação sensorial.

    Fáscia e percepção corporal

    Uma das áreas de interesse na investigação fascial é precisamente a relação entre a fáscia e a percepção corporal.

    A literatura descreve possíveis relações entre estruturas fasciais, propriocepção e outras formas de informação sensorial.

    A propriocepção está relacionada com a capacidade de perceber a posição e o movimento do corpo.

    É uma das razões pelas quais conseguimos, por exemplo, mover um braço sem precisarmos de estar constantemente a olhar para ele.

    O nosso sistema nervoso recebe informação de diferentes tecidos e estruturas e utiliza essa informação para ajudar a organizar o movimento.

    A fáscia é uma das estruturas que participa neste universo sensorial.

    E a dor?

    Aqui precisamos de ter muito cuidado.

    É tentador ouvir que a fáscia possui terminações nervosas e concluir imediatamente: “Então é a fáscia que causa a minha dor.”

    Mas não podemos fazer essa conclusão.

    A dor é uma experiência complexa e multifactorial.

    Envolve o sistema nervoso, os tecidos, o contexto, experiências anteriores, estado emocional, sono, stress e muitos outros factores.

    Por isso, não devemos utilizar a fáscia como uma explicação única para todas as dores.

    O que podemos dizer é que determinadas estruturas fasciais possuem inervação sensorial e que existe investigação sobre o seu possível papel na percepção corporal e na dor.

    É precisamente essa distinção que quero manter ao longo destes 100 dias: compreender o que sabemos sem transformar a ciência em respostas milagrosas.

    A fáscia e o movimento

    E isto leva-nos directamente ao movimento.

    Quando nos movimentamos, o nosso corpo não está apenas a produzir força através dos músculos.

    Ao mesmo tempo, estamos constantemente a receber informação.

    Sobre posição. Sobre movimento. Sobre pressão. Sobre tensão. Sobre contacto.

    O sistema nervoso utiliza toda esta informação para coordenar e adaptar o movimento.

    Por isso, podemos pensar no movimento não apenas como uma forma de mexer o corpo, mas também como uma forma de receber informação sobre o próprio corpo.

    E a fáscia faz parte desta complexa rede de tecidos e informações.

    Uma experiência simples

    Experimenta agora uma coisa.

    Fecha os olhos. Levanta lentamente um braço.

    Sem abrir os olhos, tenta perceber:

    • Onde está o teu braço?
    • Em que posição está a tua mão?
    • Quanto estás a dobrar o cotovelo?
    • Estás a fazer força ou a relaxar?

    Não precisas de responder perfeitamente.

    O importante é perceber que o teu cérebro está constantemente a receber informação do teu corpo.

    É essa comunicação contínua que nos permite adaptar e organizar os movimentos.

    Então, a fáscia sente?

    Podemos dizer que tecidos fasciais possuem estruturas sensoriais capazes de transmitir informação ao sistema nervoso.

    Mas é mais rigoroso falar em inervação sensorial e participação na informação corporal do que simplesmente dizer que “a fáscia sente”.

    A linguagem importa.

    Porque quanto mais aprendemos sobre o corpo, mais percebemos que raramente existe uma única estrutura responsável por uma experiência tão complexa como a dor ou o movimento.

    O que aprendemos hoje?

    No Dia 1 descobrimos o que é a fáscia e porque é que ela merece a nossa atenção.

    Hoje demos um passo seguinte: a fáscia não é apenas uma estrutura mecânica.

    Diferentes tecidos fasciais possuem inervação sensorial e podem participar na informação que o nosso sistema nervoso recebe do corpo.

    Mas ainda existem muitas perguntas por responder.

    E é precisamente isso que torna a investigação sobre a fáscia tão interessante.

    100 dias para compreender a fáscia

    Este é apenas o Dia 2 dos 100 dias para compreender a fáscia.

    Nos próximos episódios vamos continuar a explorar esta relação entre fáscia, movimento, percepção corporal e dor.

    Sem promessas milagrosas. Sem respostas demasiado simples.

    Apenas uma tentativa de compreender melhor um dos sistemas mais fascinantes do nosso corpo.

    Porque compreender o corpo não significa ter todas as respostas.

    Significa começar a fazer melhores perguntas.

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