
Dia 3 dos 100 dias para compreender a fáscia
· por Christine Coelho
O que acontece quando não nos mexemos?
Movimento, imobilidade e o que acontece aos tecidos do nosso corpo
No episódio anterior falámos sobre a relação entre a fáscia, o sistema nervoso e a percepção corporal.
E chegámos a uma ideia importante: movimentar o corpo também é uma forma de o sentir.
Mas então surge uma nova pergunta: o que acontece quando passamos muitas horas sem nos mexermos?
É isso que vamos explorar hoje.
O nosso corpo está sempre a adaptar-se
Quando caminhamos, quando nos esticamos, quando nos sentamos ou quando levantamos um braço, diferentes tecidos do corpo são sujeitos a diferentes forças.
O corpo está constantemente a adaptar-se às cargas e aos movimentos que fazemos.
E os tecidos fasciais também participam nesta adaptação.
A fáscia não é uma estrutura rígida e imutável.
As suas propriedades mecânicas podem adaptar-se às cargas e aos estímulos a que os tecidos são submetidos.
É uma das razões pelas quais o movimento é tão importante quando pensamos na saúde e na função dos tecidos do corpo.
E quando ficamos muito tempo parados?
Agora imagina o contrário.
Passas várias horas sentada. Ou estás muito tempo numa viagem. Ou passaste alguns dias com pouca actividade. Ou simplesmente permaneceste durante muito tempo na mesma posição.
Provavelmente já reparaste no que acontece: quando finalmente te levantas, o corpo pode parecer mais rígido.
Mas o que está realmente a acontecer?
A resposta não é simplesmente “a fáscia colou”. Essa é uma explicação demasiado simples.
A imobilidade pode estar associada a alterações nas propriedades dos tecidos conjuntivos e no deslizamento entre diferentes camadas fasciais.
Mas a sensação de rigidez é muito mais complexa e pode envolver músculos, articulações, tecidos conjuntivos, sistema nervoso e muitos outros factores.
O papel do deslizamento entre os tecidos
Para compreender melhor esta ideia, imagina duas superfícies que precisam de deslizar uma sobre a outra.
Quando existe movimento, diferentes camadas dos tecidos podem deslizar umas relativamente às outras.
Entre essas camadas existem componentes da matriz extracelular que contribuem para as propriedades mecânicas do tecido.
Um desses componentes é o ácido hialurónico.
O ácido hialurónico está presente nos tecidos fasciais e participa nas propriedades de hidratação e deslizamento entre determinadas camadas.
A investigação tem estudado precisamente a relação entre o ácido hialurónico, o movimento e as propriedades mecânicas dos tecidos fasciais.
Mas é importante não transformar isto numa explicação demasiado simples.
Não significa que “o ácido hialurónico seca durante a noite” ou que qualquer sensação de rigidez seja causada por falta de lubrificação. O funcionamento dos tecidos é muito mais complexo.
Então porque é que sentimos o corpo rígido?
Esta é uma pergunta importante.
Se acordas ou te levantas depois de muito tempo parada e sentes o corpo rígido, isso não significa automaticamente que tens a fáscia rígida.
A rigidez pode ter muitas causas. Pode estar relacionada com:
- a posição em que estiveste;
- falta de movimento;
- músculos;
- articulações;
- tecidos conjuntivos;
- idade;
- actividade física;
- inflamação;
- determinadas condições de saúde;
- entre outros factores.
Por isso, não devemos procurar uma única explicação para uma experiência tão complexa.
A fáscia é uma peça deste puzzle. Não é o puzzle inteiro.
Então porque é que mexer ajuda?
Experimenta uma coisa.
Se estás sentada, não precisas de te levantar imediatamente. Começa simplesmente a mexer os pés.
Roda os tornozelos. Mexe os dedos. Estica suavemente as pernas. Roda os ombros. Move os braços.
E depois levanta-te e começa a caminhar.
Não precisaste de fazer um alongamento intenso. Não precisaste de forçar o corpo.
Começaste simplesmente a introduzir movimento de forma progressiva.
O movimento permite que diferentes tecidos sejam novamente submetidos a estímulos mecânicos e, ao mesmo tempo, fornece informação ao sistema nervoso.
Lembras-te do episódio anterior?
No Dia 2 falámos sobre a informação sensorial.
Quando nos movimentamos, não estamos apenas a produzir movimento. Estamos também constantemente a receber informação sobre:
- posição;
- tensão;
- pressão;
- contacto;
- velocidade;
- movimento.
O sistema nervoso utiliza toda esta informação para ajudar a coordenar e adaptar o movimento.
Por isso: movimentar o corpo também é uma forma de o sentir.
E agora percebemos uma segunda coisa: o movimento também é uma forma de estimular os tecidos.
Movimento não significa forçar
Existe uma ideia muito comum de que, quando sentimos rigidez, precisamos imediatamente de fazer um grande alongamento.
Mas nem sempre é assim.
Muitas vezes, começar com movimentos pequenos, suaves e progressivos pode ser uma forma mais adequada de voltar a explorar o movimento.
O objectivo não é lutar contra o corpo. É dar-lhe novamente oportunidades para se mover, sentir e adaptar.
E a rigidez da manhã?
Talvez agora compreendas melhor porque é que podemos sentir o corpo diferente depois de várias horas de repouso.
Durante o sono passamos muitas horas praticamente sem mudar de posição.
Quando acordamos, começamos gradualmente a voltar ao movimento.
Isso pode ajudar a explicar porque é que os primeiros movimentos do dia podem parecer diferentes dos movimentos que fazemos depois de algum tempo activos.
Mas, novamente: não significa que a rigidez matinal seja simplesmente causada pela fáscia.
Se a rigidez for intensa, persistente, dolorosa ou acompanhada por outros sintomas, deve ser avaliada de forma adequada.
O que aprendemos hoje?
No Dia 1 descobrimos o que é a fáscia.
No Dia 2 descobrimos que diferentes tecidos fasciais possuem inervação sensorial e podem participar na informação que recebemos do corpo.
Hoje acrescentámos uma nova peça: o movimento é importante não apenas porque mexe o corpo, mas porque também estimula os tecidos e fornece informação ao sistema nervoso.
E quando passamos muito tempo sem nos mexermos, podemos sentir diferenças na forma como o corpo se move e como o percebemos.
Não existe uma única explicação. Existe um sistema.
E é precisamente esse sistema que vamos continuar a explorar.
100 dias para compreender a fáscia
Este é apenas o Dia 3 dos 100 dias para compreender a fáscia.
Nos próximos episódios vamos continuar a explorar a relação entre fáscia, movimento, percepção corporal, rigidez, envelhecimento e dor.
Sempre com a mesma preocupação: explicar temas complexos de uma forma simples, sem transformar a fáscia numa explicação milagrosa para tudo.
Porque compreender o corpo não significa ter todas as respostas.
Significa começar a fazer melhores perguntas.
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Este artigo acompanha o Dia 3 da série “100 dias para compreender a fáscia” no YouTube.
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- Fascia Mobility, Proprioception, and Myofascial Pain.