
Dia 5 dos 100 dias para compreender a fáscia
· por Christine Coelho
O que acontece à fáscia quando envelhecemos?
Envelhecimento, movimento e a capacidade de adaptação dos tecidos
Será que a nossa fáscia fica velha?
Quando começamos a sentir mais rigidez, menos mobilidade ou que o corpo já não responde da mesma forma, é muito fácil pensarmos:
“É da idade.”
Mas será que é assim tão simples?
O envelhecimento está associado a várias alterações no organismo, incluindo alterações nos músculos, nos tecidos conjuntivos e na matriz extracelular. Os tecidos fasciais também podem apresentar alterações nas suas propriedades mecânicas.
Mas isso não significa que exista uma espécie de “prazo de validade” para a fáscia.
O que muda com o envelhecimento?
À medida que envelhecemos, podem ocorrer alterações na estrutura e composição dos tecidos conjuntivos, incluindo alterações no colagénio, na matriz extracelular e nas propriedades mecânicas dos tecidos.
Alguns estudos descrevem aumento da rigidez e alterações da elasticidade dos tecidos fasciais associados ao envelhecimento.
Mas é importante não transformar estes dados numa conclusão demasiado simples: envelhecer não significa inevitavelmente ficar rígido.
O envelhecimento é apenas uma das variáveis que influenciam o nosso corpo.
A idade não conta toda a história
Imagina duas pessoas com 70 anos.
Uma passou muitos anos sentada, com pouca actividade física e pouca variedade de movimento.
A outra continua a caminhar, a subir escadas, a fazer treino de força, a dançar e a explorar diferentes movimentos.
Apesar de terem a mesma idade cronológica, os seus corpos não receberam os mesmos estímulos.
O corpo adapta-se às exigências a que é sujeito.
Por isso, quando falamos de envelhecimento, também precisamos de falar de movimento, carga e actividade física.
E a fáscia? Continua a adaptar-se?
Sim.
Os tecidos do nosso corpo não são estruturas estáticas.
A investigação sobre o sistema fascial tem estudado a relação entre carga mecânica, movimento e propriedades dos tecidos.
Por isso, não devemos olhar para a fáscia como algo que simplesmente “envelhece e deixa de funcionar”.
O corpo continua a adaptar-se.
O que muda é a forma como essa adaptação acontece e os estímulos de que precisa.
“A fáscia cola” com a idade?
Esta é uma expressão muito utilizada, mas precisa de algum cuidado.
Existem diferentes camadas de tecido conjuntivo que deslizam umas sobre as outras e o ácido hialurónico participa nas propriedades de deslizamento de determinados tecidos fasciais.
Mas dizer simplesmente que “a fáscia envelhece, cola e por isso ficamos rígidos” é uma explicação demasiado simplista.
A rigidez pode resultar da combinação de muitos factores: alterações dos tecidos, actividade física, força, mobilidade, exposição ao movimento, sistema nervoso e contexto individual.
O corpo é muito mais complexo do que uma única explicação.
Então podemos fazer alguma coisa?
Não podemos parar o tempo.
Mas podemos continuar a dar estímulos ao corpo.
- Podemos caminhar.
- Podemos fortalecer.
- Podemos mobilizar.
- Podemos explorar diferentes amplitudes.
- Podemos variar as direcções do movimento.
- Podemos continuar a desafiar o corpo de acordo com aquilo que conseguimos fazer.
O objectivo não é ter aos 60 ou 70 anos o corpo que tínhamos aos 20.
O objectivo é permitir que o corpo que temos hoje continue a adaptar-se.
Uma ideia importante
Não confundas idade com incapacidade.
Envelhecer faz parte da vida.
Mas sentir mais rigidez, perder força ou diminuir a capacidade de movimento não deve ser automaticamente interpretado como uma consequência inevitável da idade.
O corpo muda.
E o corpo continua a responder aos estímulos que recebe.
O que acontece depois dos 40?
Quando chegamos aos 40, 50, 60 ou 70 anos, existem muitas alterações que podem influenciar a forma como sentimos e utilizamos o nosso corpo.
E, no caso das mulheres, existe ainda uma transformação particularmente importante: as alterações hormonais associadas à menopausa.
É precisamente isso que vamos explorar no próximo episódio.
Conclusão
O envelhecimento não é uma sentença para o nosso movimento.
A idade é uma variável.
Mas não é a única variável.
Continuar a movimentar o corpo, desenvolver força e proporcionar diferentes estímulos faz parte da forma como cuidamos da nossa capacidade de adaptação.
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- Zullo A, et al. Structural and Functional Changes in the Coupling of Fascial Tissue, Skeletal Muscle, and Nerves During Aging. Frontiers in Physiology, 2020.
- Birch HL. Extracellular Matrix and Ageing. Sub-cellular Biochemistry, 2018.
- Guvatova ZG, et al. Age-Related Changes in Extracellular Matrix. Biochemistry (Moscow), 2022.
- Stecco C, et al. Investigação sobre a estrutura, propriedades mecânicas e deslizamento dos tecidos fasciais.