
Dia 4 dos 100 dias para compreender a fáscia
· por Christine Coelho
Porque nos espreguiçamos quando acordamos?
O que é a pandiculação e como o movimento pode fazer parte da transição do repouso para a actividade
Quando acordamos depois de várias horas de repouso, é muito comum fazermos uma coisa quase sem pensar: espreguiçamo-nos.
Estendemos os braços, alongamos as pernas, arqueamos o corpo e fazemos pequenos movimentos antes de começar verdadeiramente o nosso dia.
E se reparares num gato depois de acordar, vais encontrar exactamente o mesmo comportamento.
Esse movimento espontâneo de alongamento é conhecido como pandiculação.
Mas porque é que nos espreguiçamos quando acordamos?
O que é a pandiculação?
A pandiculação é um comportamento espontâneo de alongamento e movimento que ocorre frequentemente durante a transição entre o repouso e a actividade.
É um comportamento observado não só nos seres humanos, mas também em vários animais.
Apesar de existirem hipóteses sobre a sua função fisiológica, é importante não transformar essas hipóteses em certezas.
O que podemos observar é que o corpo, depois de permanecer muito tempo numa determinada posição, tende naturalmente a procurar movimento.
O corpo precisa de movimento depois do repouso
Durante o sono permanecemos muitas horas com pouca variação de movimento.
Quando acordamos, começamos progressivamente a mudar de posição, a movimentar diferentes regiões do corpo e a aumentar a actividade muscular.
O espreguiçar pode fazer parte desta transição.
Não precisamos de pensar conscientemente em cada músculo ou articulação.
O corpo começa simplesmente a mover-se.
E esse movimento também fornece informação ao sistema nervoso sobre posição, tensão, contacto e movimento.
Como vimos no Dia 2 desta série, movimentar o corpo também é uma forma de o sentir.
Pensa no corpo como uma orquestra
Gosto de pensar no corpo como uma orquestra.
Antes de uma orquestra começar a tocar, os músicos afinam os seus instrumentos.
Cada instrumento precisa de estar preparado para depois poder tocar em conjunto com os outros.
Com o corpo acontece algo semelhante.
Quando nos espreguiçamos, mudamos de posição e começamos a movimentar-nos em diferentes direcções, estamos a dar ao corpo informação e movimento antes de começarmos a actividade.
Não significa que estamos literalmente a “pôr tudo no lugar”.
Significa que estamos a permitir que o corpo se organize progressivamente para o movimento.
E onde entra a fáscia?
A fáscia faz parte deste sistema porque é um tecido contínuo, profundamente relacionado com os músculos, outros tecidos conjuntivos e estruturas sensoriais.
O movimento influencia as propriedades mecânicas dos tecidos e, ao mesmo tempo, fornece informação sensorial ao sistema nervoso.
Por isso, quando nos espreguiçamos, não estamos simplesmente a “alongar músculos”.
Estamos a movimentar um sistema inteiro.
É precisamente esta relação entre movimento, percepção corporal e tecidos fasciais que vamos continuar a explorar ao longo desta série.
Então devemos espreguiçar-nos quando acordamos?
Não é necessário transformar o espreguiçar numa obrigação ou numa técnica rígida.
Mas podemos aprender com este comportamento natural do corpo.
Em vez de saltarmos imediatamente da cama e começarmos o dia, podemos permitir alguns segundos de movimento espontâneo.
- Alongar-nos.
- Mudar de posição.
- Movimentar a coluna.
- Estender os braços e as pernas.
- Respirar.
- Sentir o corpo.
E começar o movimento progressivamente.
Tal como uma orquestra antes de começar a tocar.
Uma ideia para levares contigo
Da próxima vez que acordares, antes de te levantares imediatamente, repara no que o teu corpo quer fazer.
Talvez te apeteça esticar os braços.
Alongar as pernas.
Rodar ligeiramente a coluna.
Fazer um movimento que nem sequer tinhas planeado.
Experimenta simplesmente observar.
Porque, muitas vezes, o corpo já sabe começar a mexer-se antes de nós pensarmos nisso.
Conclusão
O espreguiçar é um comportamento simples, mas mostra-nos algo importante: o corpo não passa simplesmente do repouso para a actividade como se nada tivesse acontecido.
Existe uma transição.
Existe movimento.
Existe informação sensorial.
E existe uma capacidade natural de adaptação.
E talvez possamos começar a olhar para o espreguiçar não como um gesto sem importância, mas como uma pequena conversa entre o corpo e o sistema nervoso antes de começarmos o nosso dia.
“O corpo é mais interessante quando começamos a observá-lo.”
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Este artigo acompanha o Dia 4 da série “100 dias para compreender a fáscia” no YouTube.
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