Fáscia & Movimento

    A postura para além da posição corporal

    E se a postura não fosse algo que precisamos de corrigir, mas uma capacidade dinâmica de adaptação do corpo?

    Christine Coelho · 16 de agosto de 2026

    Mulher sentada num tapete de Yoga, vista de costas, com representação gráfica da coluna e da rede fascial do corpo.
    A postura não é uma posição fixa: é um processo dinâmico de adaptação, controlo e movimento.

    “Tenho má postura.”

    “Trabalho o dia todo sentado e tenho uma postura terrível.”

    “Tenho de fortalecer os abdominais para melhorar a minha postura.”

    “Preciso de corrigir a minha postura.”

    Alguma destas frases lhe soa familiar?

    Durante muito tempo, aprendemos a pensar na postura como uma posição que devemos atingir: costas direitas, ombros para trás, cabeça alinhada, abdómen contraído.

    Como se existisse uma forma correcta de colocar o corpo — e todas as outras fossem erros que precisássemos de corrigir.

    Mas será que o corpo humano funciona realmente assim?

    A postura é mais do que uma fotografia

    Quando observo uma pessoa, a posição que vejo naquele momento é apenas uma fotografia de um sistema que está constantemente a adaptar-se.

    Estamos sempre a responder à gravidade, ao movimento, à tarefa que estamos a realizar, ao ambiente e às informações sensoriais que recebemos.

    Por isso, a postura não deve ser entendida apenas como uma posição estática, mas como parte de um processo contínuo de controlo e adaptação do movimento.

    A investigação recente questiona precisamente a ideia de existir uma única postura “ideal” que possa ser utilizada como referência universal para todas as pessoas.

    Uma postura confortável e eficiente para uma pessoa pode não ser a mesma para outra.

    E pode também não ser a mesma pessoa em diferentes momentos do dia.

    O corpo adapta-se

    O nosso sistema nervoso recebe continuamente informação proveniente dos músculos, articulações, pele e tecidos conjuntivos.

    Essa informação contribui para a propriocepção e para a forma como organizamos o movimento e o equilíbrio.

    A fáscia faz parte deste sistema sensorial. A investigação tem demonstrado que os tecidos fasciais possuem diferentes estruturas sensoriais e que a rede fascial participa na transmissão de forças e na informação mecânica do corpo.

    Isto não significa que a fáscia seja responsável isoladamente pela postura.

    A postura emerge da interação de vários sistemas.

    E é precisamente essa complexidade que torna o corpo tão interessante.

    Então, o que é uma “boa postura”?

    Talvez a pergunta precise de ser reformulada.

    Em vez de perguntarmos:

    “Qual é a postura correcta?”

    podemos perguntar:

    “O meu corpo consegue adaptar-se?”

    Consegue mudar de posição?

    Consegue distribuir as cargas?

    Consegue respirar sem esforço?

    Consegue mover-se em diferentes direções?

    Consegue encontrar diferentes estratégias quando uma tarefa muda?

    A variabilidade do movimento é uma característica importante dos sistemas biológicos e permite responder às diferentes exigências da tarefa e do ambiente.

    Isto não significa que toda a variabilidade seja necessariamente boa ou que uma determinada postura nunca possa contribuir para sintomas. A relação entre postura, movimento e dor é complexa e não permite reduzir a dor a uma simples questão de alinhamento.

    E a respiração?

    É aqui que a respiração se torna particularmente interessante.

    Respirar não é apenas trocar oxigénio e dióxido de carbono.

    Cada ciclo respiratório produz movimento no tórax e no abdómen e envolve a coordenação do diafragma com outras estruturas do sistema musculoesquelético.

    Observar a respiração durante uma avaliação pode, por isso, dar-nos informação sobre a forma como a pessoa organiza o movimento e gere as suas tensões.

    A respiração não é uma ferramenta para “corrigir” automaticamente a postura.

    É mais uma das portas de entrada para perceber como o corpo se organiza.

    Talvez não precisemos de corrigir tanto

    Quando olhamos para o corpo desta forma, a pergunta muda.

    Em vez de:

    “Como faço para ficar direito?”

    podemos começar a perguntar:

    “Que possibilidades de movimento tenho?”

    “Consigo mudar de estratégia?”

    “Consigo sentir o que estou a fazer?”

    “Consigo adaptar-me às diferentes exigências da minha vida?”

    É aqui que a consciência corporal ganha importância.

    Não se trata de procurar uma posição perfeita.

    Trata-se de aumentar as possibilidades do corpo.

    E talvez seja essa uma das formas mais interessantes de compreender a postura:

    não como um destino, mas como uma capacidade de adaptação.

    Referências

    1. Martin E. Barra-López. The standard posture is a myth: a scoping review. Journal of Rehabilitation Medicine (2024)ver fonte
    2. Belavy et al.. No consensus on causality of spine postures or physical exposure and low back pain: A systematic review of systematic reviews. Journal of Biomechanics (2019)ver fonte
    3. Robert Schleip, Heike Jäger, Werner Klingler. What is 'fascia'? A review of different nomenclatures. ournal of Bodywork and Movement Therapies (2012)ver fonte
    4. Jan Wilke, Robert Schleip, Can A. Yucesoy, Winfried Banzer. Not merely a protective packing organ? A review of fascia and its force transmission capacity. Journal of Applied Physiology (2018)ver fonte

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