
Dia 7 dos 100 dias para compreender a fáscia
· por Christine Coelho
Porque é que começamos a ter mais dores depois dos 40?
Depois dos 40, muitas pessoas começam a notar alterações no corpo.
Um dia aparece uma dor no joelho.
Depois sentimos a lombar.
Começamos a acordar mais rígidos.
Uma determinada actividade já não parece ter o mesmo efeito que tinha alguns anos antes.
E surge quase automaticamente uma explicação:
“É da idade.”
Mas será que é mesmo assim tão simples?
A dor é uma experiência complexa e não pode ser explicada apenas pela idade ou por uma alteração num determinado tecido.
Neste artigo vamos explorar a relação entre idade, movimento, tecidos, fáscia e sistema nervoso — e perceber porque é importante não reduzir toda a dor a uma única causa.
Ter dor significa que alguma coisa está estragada?
Não necessariamente.
A dor não é simplesmente um sinal directo de que existe uma lesão.
É uma experiência produzida pelo sistema nervoso a partir da integração de diferentes informações relacionadas com o corpo e com o contexto em que nos encontramos.
Isto ajuda a explicar porque duas pessoas podem apresentar alterações físicas semelhantes e, ainda assim, ter experiências de dor muito diferentes.
Da mesma forma, podemos ter alterações nos tecidos sem sentir dor.
Por isso, quando aparece uma dor, a pergunta não deve ser apenas:
“O que está estragado?”
Também pode ser útil perguntar:
“O que mudou no meu corpo, na minha actividade e na minha vida?”
E onde entra a fáscia?
A fáscia faz parte do nosso sistema de tecidos conjuntivos e apresenta uma importante inervação sensorial.
Isto significa que os tecidos fasciais participam no universo de informação que o sistema nervoso recebe sobre o corpo.
Mas atenção:
Isto não significa que toda a dor venha da fáscia.
A dor é multifactorial e envolve a interação entre tecidos, sistema nervoso, movimento, carga, contexto e outros factores individuais.
A fáscia é uma peça deste puzzle — não é a explicação para todas as dores.
Porque é que parece que temos mais dores depois dos 40?
À medida que envelhecemos, acontecem alterações em vários sistemas do corpo.
Os músculos podem sofrer alterações de massa e força.
Os tecidos conjuntivos também sofrem alterações estruturais e funcionais.
A mobilidade pode mudar.
A recuperação depois de determinados esforços pode ser diferente.
Mas existe outro factor muito importante:
A nossa vida também muda.
Podemos passar mais tempo sentados.
Movimentamo-nos menos.
Deixamos determinadas actividades.
Repetimos os mesmos padrões durante anos.
Dormimos de forma diferente.
Temos diferentes níveis de stress.
E podemos deixar de expor o corpo a determinados tipos de carga.
Por isso, não devemos olhar apenas para a idade.
Devemos olhar para o conjunto.
O corpo adapta-se ao que fazemos
O corpo é um sistema vivo e adaptável.
A exposição ao movimento e à carga influencia a capacidade dos tecidos e do sistema neuromuscular responderem às exigências que lhes colocamos.
Isto não significa que possamos evitar todas as alterações associadas ao envelhecimento.
Significa que envelhecer não é o mesmo que deixar de ter capacidade de adaptação.
Se deixamos de utilizar determinadas capacidades, elas podem diminuir.
E, quando voltamos a expor o corpo ao movimento de forma progressiva e adequada, podemos voltar a desenvolver determinadas capacidades.
Por isso, a pergunta pode mudar.
Em vez de:
“O que é que o meu corpo já não consegue fazer?”
podemos perguntar:
“De que é que o meu corpo é capaz hoje?”
E depois:
“Como posso desenvolver progressivamente essa capacidade?”
Movimento, força e variedade
Não existe um único tipo de movimento que resolva tudo.
Caminhar, treinar força, mobilizar, mudar de posição, trabalhar a coordenação, explorar diferentes amplitudes e variar as exigências colocadas ao corpo fazem parte de uma abordagem mais completa.
O objectivo não é tentar recuperar o corpo dos 20 anos.
É permitir que o corpo que temos hoje continue a mover-se, a fortalecer-se e a adaptar-se.
E a fáscia?
A fáscia também participa neste processo.
Os tecidos fasciais respondem às solicitações mecânicas e fazem parte da continuidade estrutural e sensorial do corpo.
Mas devemos evitar explicações demasiado simples como:
“A fáscia cola.”
“A fáscia está presa.”
“A dor vem da fáscia.”
O corpo é muito mais complexo do que isso.
Quando sentimos dor ou rigidez, precisamos de considerar o conjunto de factores que podem estar envolvidos.
Não confundas idade com incapacidade
Envelhecer faz parte da vida.
O corpo muda.
Os tecidos mudam.
As necessidades mudam.
Mas idade não é sinónimo de incapacidade.
A capacidade física pode ser influenciada pela nossa história de movimento, pelo nível de actividade, pela força, pela exposição à carga e por muitos outros factores.
Por isso, talvez seja mais interessante perguntar:
“O que posso fazer hoje para ajudar o meu corpo a continuar a adaptar-se?”
Uma pergunta importante
Da próxima vez que sentires uma dor e pensares:
“É da idade.”
faz uma pausa.
E pergunta:
O que mudou?
Mudei a minha actividade?
Passei mais tempo sentado?
Deixei de treinar?
Estou a dormir pior?
Aumentei subitamente uma determinada carga?
Estou a exigir ao meu corpo algo a que ele deixou de estar habituado?
Estas perguntas não substituem uma avaliação profissional quando existe dor persistente, intensa ou inexplicada.
Mas podem ajudar-nos a olhar para o corpo de uma forma mais completa.
Conclusão
Depois dos 40, o corpo muda.
Mas mudar não significa parar de se adaptar.
A idade é uma variável importante, mas não é a única variável.
Quanto melhor compreendemos o nosso corpo, melhor podemos perceber o que ele nos está a comunicar e tomar decisões mais conscientes sobre movimento, força e cuidado.
E talvez esta seja uma das ideias mais importantes desta série:
Não confundas idade com incapacidade. O teu corpo de hoje não é o teu corpo de há 20 anos. Mas continua a ser um corpo vivo, sensível e capaz de adaptação. 🌿
Gostaste deste artigo?
Partilha com quem também possa gostar de o ler.
🌿 Queres continuar esta viagem?
Este artigo acompanha o Dia 7 da série “100 dias para compreender a fáscia” no YouTube.
Ver o Dia 7 no YouTubeFáscia depois dos 40
Se tens mais de 40 anos e queres começar a compreender algumas das mudanças que podes sentir no teu corpo, preparei também um guia gratuito.
5 coisas que podes começar a sentir no corpo depois dos 40 — e como compreendê-las.
Quero receber o guia gratuito →Referências científicas
- Raja SN, et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain, 2020.
- Fede C, et al. Fascial Innervation: A Systematic Review of the Literature. International Journal of Molecular Sciences, 2022.
- Birch HL. Extracellular Matrix and Ageing. Sub-cellular Biochemistry, 2018.
- Zügel M, et al. Fascial tissue research in sports medicine: from molecules to tissue adaptation, injury and diagnostics. British Journal of Sports Medicine, 2018.
- Izquierdo M, et al. International Exercise Recommendations in Older Adults (ICFSR): Expert Consensus Guidelines. The Journal of Nutrition, Health & Aging, 2021.