
Dia 8 dos 100 dias para compreender a fáscia
· por Christine Coelho
Porque é que nos dói a lombar?
A lombar é sempre o problema?
Durante muito tempo, quando alguém tinha dores nas costas, procurava-se imediatamente uma explicação localizada:
“É esta vértebra.”
“É este músculo.”
“É este disco.”
“É a postura.”
Mas o corpo humano não funciona como um conjunto de peças completamente independentes.
A dor é uma experiência complexa, influenciada por diferentes factores: os tecidos, o sistema nervoso, o movimento, a carga a que estamos habituados, o sono, o stress, a actividade diária e muitos outros aspectos.
Por isso, duas pessoas podem apresentar alterações físicas semelhantes e ter experiências de dor muito diferentes.
E é aqui que a forma como olhamos para o corpo se torna importante.
A continuidade dos tecidos
A fáscia permite-nos compreender o corpo a partir de uma perspectiva de continuidade.
Não estamos a falar apenas de estruturas isoladas, mas de tecidos que estabelecem relações entre diferentes regiões do corpo.
Existem relações mecânicas entre estruturas, transmissão de forças e adaptações que acontecem quando nos movimentamos.
Isto não significa que exista sempre uma relação simples do tipo:
“Tenho um problema no pé, logo o meu pé é a causa da minha lombalgia.”
O corpo é mais complexo do que isso.
Mas significa que, quando observamos uma pessoa com dor lombar, pode ser interessante não olhar apenas para o local onde a dor aparece.
Quando a dor aparece noutro lugar
Esta é uma ideia que faz parte da minha prática clínica.
Ao longo dos anos, encontrei situações em que uma pessoa chegava com dor lombar e, ao observar o corpo como um todo, encontrávamos alterações noutras regiões.
Pode ser o pé.
Pode ser a cervical.
Pode ser a anca.
Pode ser uma limitação de movimento noutra região.
Na minha experiência, estas alterações podem modificar a forma como a pessoa se organiza, se movimenta e distribui as forças pelo corpo, contribuindo para que uma determinada região seja sobrecarregada.
E a lombar pode ser precisamente essa região.
E se a lombar já for um “ponto fraco”?
Imagina que a tua lombar já sofreu uma lesão.
Ou que passas muitas horas sentada.
Ou que, por diferentes razões, essa região perdeu alguma capacidade e se tornou mais vulnerável.
Nesse caso, a lombar pode tornar-se aquilo a que gosto de chamar um “ponto fraco” dentro de um sistema que funciona como um todo.
Quando alguma coisa muda noutra região do corpo, essa zona mais vulnerável pode ser uma das primeiras a manifestar desconforto ou dor.
Por isso, uma pergunta importante não é apenas:
“Onde dói?”
Mas também:
“Como é que o meu corpo está a funcionar como um todo?”
A dor está aqui. Mas a história do corpo pode estar noutro lugar.
Esta é uma das ideias centrais deste episódio.
A dor pode estar na lombar e, ainda assim, existirem factores noutras regiões que participam na forma como o corpo se organiza e distribui as cargas.
Isto não significa que todas as lombalgias tenham origem noutra região.
A lombar também pode apresentar alterações locais e existem situações específicas que precisam de avaliação médica.
Significa apenas que não devemos assumir que o local onde dói explica, sozinho, toda a história.
O que sabemos actualmente sobre a fáscia toracolombar?
A investigação científica tem estudado cada vez mais o papel da fáscia toracolombar na lombalgia.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 comparou pessoas com lombalgia e pessoas sem dor e encontrou, nos participantes com lombalgia, maior espessura, rigidez e ecogenicidade da fáscia toracolombar. A espessura da fáscia também apresentou associação com a intensidade da dor.
No entanto, o papel exacto destas alterações e o seu valor preditivo ainda precisam de ser melhor estudados.
Ou seja, existem dados interessantes, mas ainda estamos a compreender exactamente o que significam.
É importante distinguir aquilo que já sabemos daquilo que a investigação ainda está a tentar esclarecer.
E o movimento?
Uma das coisas que sabemos é que, para muitas pessoas com lombalgia, manter ou recuperar progressivamente a actividade física é importante.
O movimento não precisa de ser perfeito.
Não precisa de ser intenso.
Pode começar por caminhar.
Mudar de posição.
Mobilizar a coluna.
Recuperar movimentos que fomos deixando de fazer.
Trabalhar a força.
E, progressivamente, aumentar a capacidade do corpo para lidar com diferentes movimentos e diferentes cargas.
As recomendações clínicas actuais para a lombalgia valorizam a educação, a autogestão e a manutenção das actividades habituais dentro das capacidades da pessoa, incluindo o exercício como parte da abordagem.
Em vez de procurar apenas “o que está estragado”
Talvez uma das perguntas mais importantes seja:
“O que é que o meu corpo consegue fazer hoje?”
E depois:
“Como posso aumentar progressivamente essa capacidade?”
Esta mudança de perspectiva é importante.
Em vez de olharmos para o corpo apenas através daquilo que dói ou daquilo que parece estar alterado, podemos também observar a capacidade de adaptação, o movimento, a força, a distribuição das cargas e a relação entre diferentes regiões.
Porque o corpo não é um conjunto de peças isoladas.
É uma rede.
E é precisamente por isso que estamos a falar de fáscia.
Quando procurar avaliação profissional
Compreender a complexidade da lombalgia não significa ignorar a dor.
Uma dor intensa, persistente, inexplicada ou acompanhada por outros sintomas deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Algumas causas de dor lombar são específicas e necessitam de uma avaliação adequada.
O objectivo não é encontrar sempre uma explicação fascial.
O objectivo é compreender melhor a pessoa e o seu corpo.
A ideia que quero que leves contigo
Quando sentires dor na lombar, talvez a primeira pergunta não tenha de ser apenas:
“O que é que está mal na minha lombar?”
Talvez também possas perguntar:
“O que mudou no meu corpo?”
“Como estou a distribuir as cargas?”
“Que regiões perderam capacidade ou mobilidade?”
“O que é que o meu corpo está a tentar compensar?”
Porque:
A dor está aqui. Mas a história do corpo pode estar noutro lugar.
Conclusão
A lombalgia não é uma história simples.
A fáscia não explica todas as dores lombares.
Mas compreender a continuidade dos tecidos, a relação entre movimento e carga e a forma como diferentes regiões do corpo participam no movimento pode ajudar-nos a olhar para a pessoa de uma forma mais completa.
O corpo não é um conjunto de peças isoladas. É uma rede.
E quanto mais compreendemos essa rede, mais interessante se torna compreender o nosso próprio corpo.
Gostaste deste artigo?
Partilha com quem também possa gostar de o ler.
🌿 Queres continuar esta viagem?
Este artigo acompanha o Dia 8 da série “100 dias para compreender a fáscia” no YouTube.
Ver o Dia 8 no YouTubeFáscia depois dos 40
Se tens mais de 40 anos e queres começar a compreender algumas das mudanças que podes sentir no teu corpo, preparei também um guia gratuito.
5 coisas que podes começar a sentir no corpo depois dos 40 — e como compreendê-las.
Quero receber o guia gratuito →Referências científicas
- World Health Organization — Low back pain.
- World Health Organization — WHO guideline for non-surgical management of chronic primary low back pain.
- NICE — Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management.
- Revisão sistemática sobre diferenças na fáscia toracolombar em pessoas com lombalgia.